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| Jussara Joekil nos recebe em sua casa |
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| O piano é um elefante branco em sua casa, pois ela não toca nada. Pertence a sua filha que mora na Alemanha |
O ser humano é avesso a certos temas que o incomodam. A morte é um deles. Jung em seu ensaio intitulado Alma e morte se contrapõe a esse pensamento ao dizer “devemos perceber como é grande a semelhança entre o desejo de viver e o desejo de morrer. Só permanece vivo quem estiver disposto a morrer”. O nosso personagem se relaciona todos os dias com esse tema, pois trabalha a muitos anos com o assunto. Mas nem por isso é menos humano, como qualquer outra pessoa, ou passa a ser descrente, por ver tanta desgraça alheia. Enfim, a morte pode estar banalizada, mas cada indivíduo possui o seu olhar sobre essa questão. Só depende de onde se está, à margem ou no centro da questão.
Nascida e criada no bairro Portão, Jussara Joekil, 52 anos, presenciou tanto mudanças drásticas nos costumes curitibanos, quanto nos aspectos urbanos da cidade. Junto com a metrópole, nascem os arranha-céus, indústrias, desenvolvimento, etc. Mas também advêm problemas urbanos e sociais decorrentes do próprio inchaço populacional, proporcionado por todo esse crescimento. Um desses problemas é a violência, que em contrapartida gera muitas mortes na capital, em média 2 homicídios por dia segundo Mapa do Crime de 2011.
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| Ela também leva trabalho pra casa. Afinal a sua rotina é desgastante |
A vinte e três anos, Jussara é perito criminal do Instituto de Criminalística do Paraná, atuando na especialidade de morte violenta. Segundo ela a sua grande inspiração foi o seu pai, que era policial, e desde a infância, sonhava com essa profissão. “Nunca me vi fazendo outra coisa, eu sempre quis ser polícia”, afirma a perita.
Uma dona-de-casa, mãe, casada, com 3 filhos já criados. Que sempre procura ficar junto da sua família. Religiosa, acredita que Deus a colocou nesse ofício para tentar fazer justiça. Considera uma missão divina, ajudar as pessoas, solucionando os casos, principalmente aqueles em que o acusado nada deve. Adora animais, atualmente está com quatro cachorros. Seus hobbies prediletos são fazer trabalhos manuais, costura, pintura e também atirar, afinal, são ossos do ofício. Mas o que ela gosta mesmo, quando não está trabalhando, é de ler romances, especialmente de Oscar Wilde, e que de preferência não tenham nada a ver com violência.
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| Seu Hobbie é pintar e admirar obras clássicas |
Ela é psicóloga, mas nunca atuou na área. Por sua experiência com a morte, apresenta uma visão verídica e sincera de uma realidade que não queremos enxergar ou preferimos simplesmente negá-la por comodidade. Porém Sartre contesta esse posicionamento sendo bem otimista quanto ao reconhecimento de nossas limitações afirmando que “a medida que nos conscientizamos de nossa mortalidade e fragilidade, poderemos mais intensamente valorizar a vida e viver sem desperdício de um só minuto de nossa existência” .
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| Adora ler romances, principalmente de Oscar Wilde |
CP – Como você enxerga o retrato que os seriados como CSI e o cinema realizam sobre o ofício de um perito criminalístico?
Jussara Joekil - É muito frustrante como o cinema e a televisão retratam o nosso ofício. Apesar de mostrarem exatamente aquilo que fazemos, quanto a equipamentos, materiais e as técnicas. Existem algumas fantasias. Nesses seriados todos os casos possuem começo, meio (que é o processo investigativo) e um fim, que é quando se prende o acusado e se mostram as evidências que levaram até ele. Na vida real é outra coisa. De cada 10 casos, eu diria que 3 nós vemos o final. Não porque não queiramos, mas por excesso de trabalho. Outra coisa que considero errôneo nesses seriados como CSI e Cold Case, é o fato de que algumas mulheres ao mesmo tempo que estão pegando o cadáver, arrumam o cabelo ou ajeitam os óculos. Isso é totalmente contra a segurança do trabalho. A partir do momento que eu coloco as luvas, a minha mão deve sair do meu corpo. Antes de retirá-las, não posso tocar em nada mais.
CP – Os jovens se interessam pela profissão? O que eles podem agregar ao trabalho que já é feito?
Jussara Joekil - Atualmente, até pela visibilidade que esses mesmos seriados proporcionam, existem muitos jovens com bagagem acadêmica interessados e ingressando nesse ramo. Vejo com otimismo a entrada desse pessoal nessa atividade. Um aspecto é o quantitativo pela demanda crescente de crimes. Outro é o tecnológico, pois esse pessoal vem trazendo mais energia e conteúdo operacional pra nossa atividade, que aliada a experiência que nós já possuímos, podem trazer grandes avanços ao trabalho desenvolvido nessa área.
CP – Curitiba é uma cidade segura? Como você vê o jovem nesse mundo violento?
Jussara Joekil - Neste momento não. Hoje os pais estão enterrando os filhos. E se continuar no ritmo que está daqui a 20 anos existirá uma lacuna no nosso país. Seremos um país de velhos e crianças, tamanha a destruição que o tráfico de drogas e de armas vem causando a nossa juventude. Principalmente o tráfico de armas, pois são elas que matam diretamente. Em todos esses anos de trabalho, se presenciei 4 casos de morte por overdose de drogas, foram muitos. A droga em si não mata, as armas sim. Por isso temos que combater esse tipo de tráfico a todo custo.
CP – Qual é o fundamento de se trabalhar com a morte? O que mais lhe fascina?
Jussara Joekil - A essência do que faço não está em trabalhar para a vítima ou para o rel, mas para servir a justiça. E o que mais me fascina é o processo de investigação.
CP – O perito criminal hoje, sofre preconceito devido ao que faz?
Jussara Joekil - Sim, devido a falta de conhecimento e preconceito das pessoas, que chegam até a se revoltar com a nossa presença no cenário do crime. Já me falaram que a gente demora pra chegar no local, porque queremos dinheiro. Existem processos burocráticos num homicídio, que devem ser cumpridos, como a chegada da polícia militar e civil primeiramente. Só que algumas pessoas ignorantes não entendem.
CP - Quais as principais dificuldades do ofício?
Jussara Joekil - No meu caso é a idade, porque não existem mortes só em via pública e dentro de casa. Existem lugares que você tem que andar no lombo de cavalo por 30Km por exemplo, e às vezes é dentro do mato, de noite, na chuva, banhado. Enfim, o meu maior obstáculo hoje, é a minha condição física para essa atividade.
CP – Como você relaciona vida pessoal e trabalho?
Jussara Joekil - Acho que eu sei separar bem as coisas. O meu trabalho é só mais um trabalho. O cadáver é só mais uma peça do crime, além dos vestígios e evidências. Não o vejo com emoção, porque não é mais um ser humano, é um cadáver. E por ele não ter mais vida, isso não me choca.
CP – O que sente ao se deparar com uma vítima e seus familiares? Como se dá essa relação?
Jussara Joekil - Não tenho pena das vítimas e nem dos familiares. A minha relação com os parentes dessas pessoas é de carinho e sinto que o meu dever é ajudá-las. Enxergo tudo isso como um processo natural de maturidade, que a minha profissão me condiciona perante a morte. Se eu não me dissociar do aspecto sentimental, seria impossível a minha atuação nessa rotina.
CP – De que forma a sua família enxerga a sua profissão?
Jussara Joekil - Eu constitui família depois de já trabalhar como policial perito. Então, desde que concebi a minha família, todos sempre estiveram cientes do que faço. Ás vezes trago material e faço laudos em casa. O meu marido e os meus filhos perguntam, questionam e comentam sobre o que acham sobre os casos. Já a minha menina, que é engenheira, casou recentemente e foi morar na Alemanha, sabe o que faço, mas não quer nem saber do assunto, pois lhe causa pavor. Mas acredito que todos eles já estão acostumados, e que me admiram. O caçula até quer ser policial.
Por RogérioTeotonio
Imagens: Elian Woidello/Rogério Teotonio





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