Hoje é impossível não sofrer interferências do cinema, pois as suas influências e derivações nos fazem participar do seu fluxo de informações. Ele tem atuado intensamente sobre as formas de percepção e as experiências de tempo e espaço neste século, e isso faz com que não haja limites claros entre as linguagens audiovisuais a que ele deu forma e as outras formas contemporâneas de linguagem.
O cinema inaugurou uma era de predominância da imagem e desenvolveu uma linguagem popular. Inicialmente artesanal, o cinema apareceu misturado a outras formas de diversão populares. Ao contrário do ritmo mais lento e da maior duração dos filmes imediatamente posteriores, feitos a partir da sistematização da gramática fílmica por D. W. Griffith, os primeiros filmes são mais rápidos, chegando ao ponto de serem até engraçados.
Eles são normalmente usados como exemplos de um tempo onde a chamada linguagem do cinema ainda não está estabelecida. São, apesar disso filmes que revelam uma intensa energia, feita de experimentação, referências intertextuais e uma convivência intrigante de preconceitos ou estereótipos de todo tipo com uma evidente ausência de moralismo. O que neles chamava a atenção não eram as fragilidades de ser primitivo, mas sim uma série de características como:
- uma consciência explícita do próprio meio que estava sendo utilizado, com referencias metalingüísticas. É o caso de filmes como Uncle Josh at the Moving Picture Show ( Edison, Porter, 1902) ou Biograph, WMC Autcheon, 1904).
- As descontinuidades de montagem.
- Nos primeiros tempos a realização, direção, produção ou fotografia eram funções muitas vezes exercidas pela mesma pessoa.
O primeiro cinema é sobretudo um processo de transformação. Transformação que é visível na evolução técnica dos aparelhos e da qualidade das películas, na rápida transição de uma atividade artesanal e quase circense para uma estrutura industrial de produção e consumo, na incorporação de parcelas crescentes de público. E, paralelamente, o primeiro cinema inclui também as transformações formais na linguagem que este contexto propicia. Também devido a isso se explica a dificuldade de descrevê-lo, pois é um período de constantes mudanças.
Entende-se por primeiro período os filmes e as práticas a eles correlatas surgidos no período de aproximadamente entre 1894 e 1908. E diante desse primeiros filmes, temos hoje várias impressões contraditórias. Percebemos neles uma gritante energia, meio anárquica, meio irreverente. Mas estes nos dão ao mesmo tempo a sensação de morte. Todas as coisas que vimos ali já desapareceram, mudaram, morreram. Porém essa sensação desaparece a medida que vemos mais filmes recentes, isto é, a medida que os filmes vão se tornando narrativos.
Referência Bibliográfica:
Costa, Flavia Cesarino O primeiro Cinema – São Paulo: Scritta, 1995 – (Coleção Clássica)

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