sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Marcos Cordiolli da ANCINE, fala de cinema paranaense e seus diretores

 
Em entrevista a Rogério Teotonio Rodrigues, Marcos Cordiolli, da diretoria da Agência Nacional de Cinema – ANCINE, fala de cinema paranaense e seus principais representantes.

Ficha Técnica:
Nome: Marcos Cordiolli

Idade: 48 anos
Formação: Historiador e Mestre em Educação
Ramos de atuação: Produção Executiva em Cinema e TV. Atualmente na assessoria da diretoria da Agência Nacional de Cinema – Ancine.
Filmografia:
Produtor Associado do filme O Sal da Terra (Brasil, 2008) de Eloi Pires  Ferreira.
Diretor de Produção (com Elói Pires Ferreira) de Conexão Japão (Brasil, 2008) de Talício Sirino.
Produtor Associado e Produtor Executivo de Curitiba Zero Grau (Tigre Filmes)
Produtor Executivo de Brainflorest (Brasil). Animação em Longa Metragem de Paulo Munhoz (Tecnokena) ainda em produção.
Também estou lançando uma coluna de critica de cinema em jornal.


1 – O Paraná pode ser considerado um grande centro de produção em Cinema? Por quê?
Resp: Em termos quantitativos a produção de cinema comercial brasileiro está concentrada no Rio de Janeiro, que em 2009 produziu 54,8% dos filmes nacionais lançados. O Rio de Janeiro lançou cerca de 400 filmes entre 2005 e 2010, enquanto, o Paraná disponibilizou no circuito comercial pouco mais de uma dezena de produções. Mas esta é apenas a ponta do Iceberg. O Paraná tem uma produção de filmes de curtas e médias metragens reconhecida e qualificada.
           O Paraná está em situação muito promissora quando se trata de produção de cinema. É sede de diversas produtoras atuando intensamente na produção. Instituiu um prêmio estadual que garante a cada dois anos (que deveria ser anual) a realização de um longa metragem e três tele-filmes. Mantém escola cinema na FAP e outros cursos profissionalizantes. Dispõe de um diversificado e amplo quadro de atores com experiência.O Paraná é também um estado cenário com diversidade de paisagens e de etnias.
         Os filmes paranaenses de curta e longa metragem a muito tempo são destaques em festivais internacionais. E entre as animações, o Brasil produziu menos duas dezenas de filmes em toda a nossa história e dois deles foram produzidos por Paulo Munhoz, no Paraná.
            Portanto, posso afirmar que o Paraná, potencialmente, é um grande centro de produção em cinema.

2 – Quais as principais características ou particularidades do cinema paranaense e seus diretores?
Resp: O Paraná tem uma variada produção cinematográfica em diversos gêneros e formatos. Vou tratar aqui, com uma certa injustiça, apenas dos filmes de longa metragem produzidos nos últimos anos em Curitiba. Por dois motivos. Primeiro, porque são os filmes de longa metragem produzidos para salas comerciais de exibição que efetivamente promovem um território como produtor de cinema. E segundo, porque é o segmento que conheço melhor.
        Os filmes do Paraná possuem qualidade de produção internacional, ou seja, estão qualificados para exibição em qualquer sala de cinema ou canal de TV do mundo. Por outro lado tem se destacado pela qualidade estética, sendo que quase todos eles obtiveram sucesso em festivais internacionais. “Estômago” de Marcos Jorge, foi reconhecido pela critica brasileira e internacional, conquistou uma legião de fãs, arrebatou vários prêmios em festivais internacionais e foi assistido por um bom público em diversos países. O Sal da Terra fez sucesso em dois festivais internacionais, um em Paris e outro na Califórnia, e é reconhecido como Road movie, ousado e significativo. “Belowars” é a poesia visual na sua forma mais absoluta, foi reconhecido em festivais internacionais e, acredito, que ainda não foi descoberto pelo público, o que ocorrerá mais cedo ou mais tarde. “Misteryos” de Beto Carminatti e Pedro Merege, teve um baixo desempenho nas bilheterias, mas concorreu ao grande prêmio do cinema brasileiro e seguramente deverá ser objeto de estudos nas escolas de cinema pelos planos e seqüências criativas, entre outras qualidades. Corpos Celestes, de Marcos Jorge e Fernando Severo, muito diferente de outros filmes produzidos no Brasil, é uma pérola: elegante, requintado e extraordinariamente bem elaborado. “Brichos”, também de Paulo Munhoz, criou uma família de personagens animados baseados na fauna brasileira que pode vir a se incorporar definitivamente a cultura infantil, como breve lançamento de “Braimforest”. “Morgue Story: sangue, baiacu e quadrinhos” de Paulo Biscaia é também primoroso, representante maior no Brasil, das obras que se aproximam dos chamados filme B. O Curitiba Zero Grau, também de Eloi Pires Ferreira recupera a tradição dos cronistas locais e traduz na linguagem cinematográfica com apurada intertextualidade visual. Todas estas obras são candidatas a reverência como filmes Cult e com perenidade de exibição. Ainda não vi "O Coro" de Werner Schumann e “Circular” de Adriano Esturilho, Aly Muritiba, Bruno de Oliveira, Diego Florentino e Fábio Allon e, segundo, o que ouvi, parecem ser dois filmes do mesmo grupo: construção estética apurada com aprimorada linguagem cinematográfica.

3 – O cenário atual permite com que haja uma evolução do cinema aqui no nosso Estado? De que forma isso pode ocorrer?
Resp: O cinema paranaense para continuar crescendo precisa superar diversas dificuldades e entre estas vou enunciar alguns gargalos: as dificuldades de comercialização e distribuição; a instabilidade de financiamento e a necessidade de qualificação das produtoras.
         O gargalo da distribuição é nitidamente percebido quando belos filmes como o “Cantoras do Rádio”, de Gil Baroni, e o Belarmino e Gabriela de Geraldo Pioli, por falta de distribuição tiveram baixo desempenho quando teriam todas as condições de fazer um bom público no cinema ou de conquistarem uma boa audiência de TV. Em termos de TV, temos ainda a proposta de série com a família de personagem Brichos e o Caminho da Escola de Heloisa Passos, que ainda não decolaram, mas que representam boas perspectivas de produção televisiva. Neste sentido é importante, o fortalecimento de distribuidoras que atuem com conteúdo regional, como a distribuidora paranaense da Diana Moro.
         O segundo gargalo é o da instabilidade do financiamento para o cinema. Veja o caso de Marcos Jorge, realizou o Estômago, que conseguiu grande sucesso, e como diretor é sondado por produtoras internacionais. Apesar desta situação, Marcos Jorge ainda não tem os recursos suficientes para produzir “O dois seqüestros” o seu próximo filme. No aspecto local é importante constatar a ausência de política regional para a estruturação da cadeia produtiva do audiovisual que garanta o crescimento sustentável deste segmento da economia.
       O terceiro gargalo é referente à reduzida qualificação empresarial das produtoras de cinema do Paraná. Na maioria das vezes, são empresas administradas pelos próprios artistas (roteiristas, diretores e montadores). O Cinema é uma atividade industrial e que, mesmo localmente, disputa espaço com as gigantescas produtoras dos Estados Unidos. No entanto, o Paraná, já conta com boas experiências entre as quais a Artelux dirigida pela Laurinha Dalcanale que atua como co-produtora, tanto local, como nacional e internacional, além de trazer produções internacionais para cá. A Zencrane, gerenciada pela Claudinha da Natividade, que já desenvolveu um padrão de negócios com qualidade internacional. A Tecnokena de Paulo Munhoz e Daniela Michelena já possui qualificações impares e destacáveis na área da animação. E Laz, de Rubens Genaro e Virginia Moraes que desde o início empreenderam importante produções com parceiros de outros estados e internacionais.

4 - Quais os aspectos mais relevantes na construção de um filme?
Resp: O aspecto mais relevante é o desenvolvimento do projeto do filme. Uma boa história sem roteiro de qualidade, sem plano de produção eficiente e sem foco de comercialização delimitado corre muitos riscos de fracassar. O improviso e o amadorismo não têm lugar na economia do cinema! Não se pode aderir a síndrome do cachorro vira-lata, pois só bons filmes possibilitam a conquista de espaço no circuito cinematográfico. A qualificação da produção é condição necessária, porém  não suficiente, para realizar bons filmes com resultados adequados estéticos, de circulação e comercialização.

5 - Quem mais lhe influenciou ao longo de sua carreira?
Resp: A principal foi á convivência com cineastas motivados, utópicos e competentes. Cito primeiramente a experiências com Eloi Pires Ferreira e J. Olimpio na pós produção e distribuição do Curitiba Zero Grau. O trabalho em parceria com Laurinha Dalcanale, no inicio da produção do ainda inédito “Cinco Estrelas”. A convivência cotidiana com Paulo Munhoz na produção do Brainforest. Também o convívio com Talicio Sirino, Eloi e J.Olimpio na elaboração do projeto do Seriado Franco, ainda em produção. E por ultimo, o convívio com  toda a equipe de produção do Curitiba Zero Grau, uma verdadeira epopéia realizadas nas ruas de Curitiba, sob a coordenação de Salete Machado.
       Apontaria ainda mais algumas influências importantes. A primeira foi a ter assistido a muitos filmes bons nos cinemas públicos de Curitiba. Eu sou da geração Cine Groff, Ritz, Luz, Guarani e Cinemateca Guido Viaro. Nos anos 1980, eu pude assistir, em tela grande, os importantes clássicos do cinema italiano, soviético, japoneses, alemão, italiano, latino-americano. Além de filmes de arte e autorais de diversas partes do mundo, como a Hungria, Polônia, China etc. Hoje continuo assistindo e revendo filmes na televisão e mostras, mas nada é comparada com aquela fase de exibição de filmes clássicos em Curitiba.
            A segunda foi a formação com cursos e muita leitura sobre todos os aspectos artísticos e técnicos. Assisti a aulas com Celso Kava, Alessandro Larocca, Geraldo Pioli, Luciano Coelho, Hugo Mengarelli e diversos intelectuais de outras partes do Brasil que ofertaram cursos e palestras em Curitiba.
          A terceira é mais recente, refere-se a experiência atual na assessoria da Diretoria da Ancine, o que tem me permitido aprender e compreender outras dimensões da produção cinematográfica. E a isto sou grato ao Diretor Glauber Piva que me convidou para esta importante função.

7 - Quais as principais dificuldades em se fazer um filme?
Resp: O primeiro é construir o roteiro, um plano eficiente de produção e a conquistar a garantia dos recursos humanos e materiais para a produção e distribuição do filme. Temas que já abordei em outra pergunta. Ou seja, vencer os desafios de formatar o projeto estético e a estratégias de produção e distribuição do filme.
     O segundo é montar a equipe. Os filmes são obras compostas, que tem diversos profissionais, com conhecimentos específicos que influenciam o produto final. Eu sou daqueles que desconfia de filmes que tenha uma mesma pessoa em mais de duas funções autorais chaves, embora, reverencie bons cineastas que conseguem esta proeza. Mas, a principio, não recomendo.
         O terceiro é conseguir o financiamento adequado. Não se faz cinema sem dinheiro. Pode se fazer filmes com pouco dinheiro e muita criatividade. As tecnologias digitais facilitam a captura de imagem, a edição e a promoção dos filmes. Mas bons filmes requerem locações, maquinaria, figurinos, cenografia, técnicos qualificados e atores. Que trabalham às vezes por semanas. E este tempo corresponde a remuneração, transporte, acomodação e alimentação. E tudo isso custa caro.

6 - O que é CINEMA?
Resp:Eu estou próximo dos cinqüenta anos, penso nisso desde 10, quando, religiosamente, todos os domingos assistia as matinês de cinema. Mas ainda não tenho uma resposta segura. Mas te responderia subjetivamente: é o momento mágico de estar diante de uma tela e se deixar levar por um encadeamento de fotogramas, que mesmo sabendo que é de mentira, te arrebata e produz imenso prazer. E, mesmo, depois do filme ter terminado, ele te acompanha por muito tempo.
           A definição de cinema, para mim, é necessariamente a experiência entre o expectador e o filme. Eu como produtor, quero produzir filmes para propiciar estas experiências a outras pessoas. Mas ainda temos outras definições. A primeira é de que o cinema e a produção audiovisual, na sua totalidade, são instrumentos que interferem na formação da subjetividade humana. Portanto, a produção de cinema é fundamental na formação da identidade das populações e para garantir a autonomia com diversidade. Uma segunda é econômica. O cinema e o audiovisual é parte do segmento econômico que mais cresce no mundo, portanto, a produção de filmes é necessária para garantir a soberania econômica do país.

Por Rogério Teotonio Rodrigues

domingo, 7 de agosto de 2011

Primeiros Cinemas


               Hoje é impossível não sofrer interferências do cinema, pois  as suas influências e derivações nos fazem participar do seu fluxo de informações. Ele tem atuado intensamente sobre as formas de percepção e as experiências de tempo e espaço neste século, e isso faz com que não haja limites claros entre as linguagens audiovisuais a que ele deu forma e as outras formas contemporâneas de linguagem.
            O cinema inaugurou uma era de predominância da imagem e desenvolveu uma linguagem popular. Inicialmente artesanal, o cinema apareceu misturado a outras formas de diversão populares. Ao contrário do ritmo mais lento e da maior duração dos filmes imediatamente posteriores, feitos a partir da sistematização da gramática fílmica por D. W. Griffith, os primeiros filmes são mais rápidos, chegando ao ponto de serem até engraçados.
            Eles são normalmente usados como exemplos de um tempo onde a chamada linguagem do cinema ainda não está estabelecida. São, apesar disso filmes que revelam uma intensa energia, feita de experimentação, referências intertextuais e uma convivência intrigante de preconceitos ou estereótipos de todo tipo com uma evidente ausência de moralismo. O que neles chamava a atenção não eram as fragilidades de ser primitivo, mas sim uma série de características como:
- uma consciência explícita do próprio meio que estava sendo utilizado, com referencias metalingüísticas. É o caso de filmes como Uncle Josh at the Moving Picture Show ( Edison, Porter, 1902) ou Biograph, WMC Autcheon, 1904).
- As descontinuidades de montagem.
- Nos primeiros tempos a realização, direção, produção ou fotografia eram funções muitas vezes exercidas pela mesma pessoa.
            O primeiro cinema é sobretudo um processo de transformação. Transformação que é visível na evolução técnica dos aparelhos e da qualidade das películas, na rápida transição de uma atividade artesanal e quase circense para uma estrutura industrial de produção e consumo, na incorporação de parcelas crescentes de público. E, paralelamente, o primeiro cinema inclui também as transformações formais na linguagem que este contexto propicia. Também devido a isso se explica a dificuldade de descrevê-lo, pois é um período de constantes mudanças.
            Entende-se por primeiro período os filmes e as práticas a eles correlatas surgidos no período de aproximadamente entre 1894 e 1908. E diante desse primeiros filmes, temos hoje várias impressões contraditórias. Percebemos neles uma gritante energia, meio anárquica, meio irreverente. Mas estes nos dão ao mesmo tempo a sensação de morte. Todas as coisas que vimos ali já desapareceram, mudaram, morreram. Porém essa sensação desaparece a medida que vemos mais filmes recentes, isto é, a medida que os filmes vão se tornando narrativos.    

Referência Bibliográfica:
Costa, Flavia Cesarino  O primeiro Cinema – São Paulo: Scritta, 1995 – (Coleção Clássica)

sábado, 6 de agosto de 2011

O olhar de quem faz acontecer, cinema no Paraná



Cena do filme Curitiba Zero Grau 

             Na agricultura, soja. Na dança, fandango. Em meio às araucárias, pinhão. Engana-se quem pensa que o cinema não faz parte da cultura paranaense. Ele não só tem representatividade no estado, como também ajuda a contar a história do cinema no Brasil. A cidade de Curitiba, por exemplo, exibiu cinema menos de dois anos depois da primeira sessão dos irmãos Lumière. Logo após o Rio de Janeiro.
            Desde a primeira exibição de imagens em movimento no estado, que aconteceu na capital paranaense, no dia 25 de agosto de 1897, no chamado Theatro Hauer e posteriormente Cine Marabá, o cinema deu os seus primeiros passos no desenvolvimento de uma arte criativa e produtiva na região dos pinheirais. O Paraná começou sua produção local efetivamente, por volta de 1907 e teve no ano de 1903 a exibição do primeiro filme brasileiro em Curitiba. Portanto, o estado é um dos pioneiros no Brasil na produção cinematográfica.
            Se compararmos o Paraná, com uma referência nacional de produção nesse ramo, o Rio de Janeiro, por exemplo, ficamos muito aquém em termos quantitativos de produção cinematográfica, é o que afirma Marcos Cordiolli, produtor e assessor da diretoria da Agência Nacional de Cinema – Ancine. “Em termos quantitativos a produção de cinema comercial brasileiro está concentrada no Rio de Janeiro, que em 1989 produziu 54,8% dos filmes nacionais lançados. O Rio lançou em torno de 400 filmes entre 2005 e 2010, enquanto, o Paraná, disponibilizou no circuito comercial pouco mais de uma dezena de produções, nesse mesmo período.”
            Porém, o produtor de Brainflorest, vê com otimismo o crescimento da atividade no cenário estadual. “Aqui tem uma produção de filmes de curtas e médias metragens reconhecida, qualificada e muito promissora. Pois possui diversas produtoras, tem um prêmio estadual, mantêm cursos profissionalizantes e possui atores com experiência”, afirma o assessor da Ancine.
            Em termos nacionais a situação cinematográfica paranaense é mais positiva.
“Aqui sempre tivemos uma produção significativa se comparado a outros estados, mesmo quando a gente só produzia em película, antes do advento do digital” diz Geraldo Piolli, cineasta, filósofo, professor e atual coordenador do curso de Cinema da Cinemateca de Curitiba. Para o cineasta, fora o eixo Rio-São Paulo, o estado sempre foi um dos que mais produziram, junto com Rio Grande do Sul, Brasília, Bahia, Recife e Minas Gerais. Na realidade, poucos estados brasileiros produziam na época da película, “existem estados que até os anos 2000 não tinham produzido sequer um curta.“, afirma o cineasta.
      Segundo Piolli, diretor do filme Nho Berlamino Nhá Gabriela, o Paraná, por ser um estado muito eclético desde a formação de suas etnias, transmitiu muito dessa mistura ao cinema. “Não existe uma linha de produção específica ou uma característica determinante. O cinema paranaense é um mosaico de produções diferenciadas, desde as temáticas e a estética, até a forma de fazer e de produzir. Por isso, não acredito que existe uma característica que defina o cinema paranaense”.
Cena do filme O Sal da terra
Para a diretora e produtora de Eternamente, Cristiane Lemos, o cinema local possui sim uma particularidade especial, “a meu ver o nosso cinema é mais autoral, ele busca refletir as nossas falas”. Ela critica a falta de esclarecimentos e de apoio do governo, com relação ao cumprimento da lei de incentivos, por parte dos empresários. “Para esse centro de produção de cinema do Paraná, existir de fato, precisaríamos no mínimo contar com mais disposição por parte dos governantes, numa campanha de esclarecimentos do empresariado local, para os benefícios da aplicação na área, que na verdade é um repasse do imposto, sem qualquer ônus para os mesmos”, esclarece Cristiane.
            Frente às dificuldades em se fazer cinema no Paraná, José Olímpio Andreatta Cavallin (J. Olímpio), diretor, produtor e roteirista, ressalta respectivamente duas qualidades do cinema paranaense e dos nossos diretores, que contribuem para a crescente produção cinematográfica no estado, “graças à diversidade de estilos do nosso cinema e a persistência dos diretores daqui, conseguimos enfrentar as dificuldades financeiras (patrocínios) e a incompreensão da importância do cinema, como espelho onírico da sociedade humana”, enfatiza o produtor executivo de Curitiba Zero Grau e roteirista de O Sal da Terra.
Segundo a estudante de cinema e produtora executiva de Circular, Marisa Merlo, a falta de incentivos e de distribuição, emperra a divulgação, comercialização e um melhor desenvolvimento e aproveitamento da arte no estado.  “O Paraná é carente de exibição. Ainda não dá pra afirmar que o estado vai um dia se tornar um grande centro de produção em cinema. Temos uma faculdade com alguns bons professores, que nos estimulam, mas depois de formados ou prestes a se formar, a maioria dos alunos, só pensam em seguir carreira fora de Curitiba (e do Paraná), pois, há muito pouco incentivo e esforço para que esse pessoal fique por aqui e desenvolva seus trabalhos”, afirma a produtora.
Marisa diz que não bastam somente leis ou eventos isolados para mudar essa realidade. Para ela, se faz necessário, pensar o cinema além desse viés. “Formar um grande centro de produção em cinema, não significa somente criar ou incrementar leis de incentivo que fomentem a produção de filmes e fazer uma pequena mostra vez ou outra. Cinema é muito mais que isso.”            
            O olhar de quem faz acontecer, no cinema paranaense, reflete à importância da sétima arte em nossas vidas. Cristiane Lemos, reforça essa ideia ao falar do seu conceito sobre o assunto, “o cinema é uma possibilidade para poucos de realizar uma façanha para muitos. Simplesmente uma janela, para o mundo ver, ouvir e sentir a tua singular visão e que pode de lambuja ser responsável por inovar, refletir e às vezes anular conceitos.” 

Texto: Rogério Teotonio Rodrigues
Imagens: Produção Curitiba Zero Grau/ Produção O Sal da Terra